artista não binário lança álbum

Artista petropolitano não binário lança o seu primeiro álbum

Ao mesmo tempo em que remete ao estilo clássico, composição aborda questões contemporâneas

Camila Caetano – especial para o Diário

Que a pandemia fomentou muitas produções artísticas não é novidade. E é nesse interim que surge “A Velha Angústia em 5 Atos” – um álbum musical composto por um artista não binário que nasceu no Rio de Janeiro, e reside em Petrópolis desde a infância, popular e artisticamente conhecido como O Loba. O próprio nome do álbum, já dá uma prévia sobre a mensagem que ele quer passar. Com sons que remetem à música clássica em mixagens que relembram tudo que há de mais contemporâneo no mundo, a obra traz à tona, de maneira assídua e metafórica, as muitas faces de uma depressão profunda, e da identidade de gênero. O álbum foi lançado no dia 11 de novembro, e se encontra disponível no YouTube.

Foi aos 7 anos de idade que Loba começou a manifestar a arte que sempre existiu dentro de si, visto que, mesmo que cedo, já escrevia poesias e peças de teatro. Devido à timidez, o artista conta que sempre esteve cercado pela solidão e, dessa forma, acabou se tornando autodidata. Apesar do talento nato que sempre possuiu, o Loba começou a expor sua arte apenas aos 18 anos, encorajado por amigos, na Roda Cultural do Centro de Cultura. Hoje, aos 25, ele lança o seu primeiro álbum, baseado em questões que sempre perturbaram a sua existência.

– Eu nasci no Rio de Janeiro, mas moro em Petrópolis desde criança.

Minhas primeiras lembranças artísticas são com sete anos de idade. Eu escrevia poesias, e escrevia e ensaiava peças de teatro. Aprendi sozinho, e na verdade sempre fui muito sozinho, além de muito tímido. Eu guardava tudo o que compunha, pintava ou escrevia. Apenas aos 18 anos me anunciei ao mundo, graças a dois queridos amigos que batalhavam nas rodas culturais de quinta-feira, e que acreditaram em mim como poeta. Sou uma persona trans não binária, e me identifico com o pronome masculino, pois, quero dar ênfase à dualidade que existe e me acompanha. Isso é dito no álbum – introduziu o artista.

Segundo Loba, a “velha angústia” era como se chamava a depressão antes dela ser reconhecida como doença, e, seu álbum “A Velha Angústia em 5 Atos”, é composto por um interlúdio, três canções principais e um posfácio melódico. Todo processo de produção do mesmo foi realizado enquanto ele estava em depressão profunda – algo que, segundo o artista, fez com que ele olhasse com mais carinho ainda para o álbum, visto que, sem a composição, talvez não estivesse mais aqui.

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– O álbum foi escrito, produzido e publicado enquanto estive em depressão profunda. Poucas são as coisas que salvam vidas nesse mundo capitalista, de desempenho e experiência: educação salva, terapia salva, arte salva. Liguei para o Centro de Valorização da Vida, mas, ninguém atendeu, então fiz um a´lbum e ainda estou aqui. Eu olho para ele com muito carinho, pois, sinto que se não tivesse expurgado-o do peito, não estaria mais presente.

– Um querido amigo me disse que escutando o álbum, se aproximou de seus demônios e que esperasse que eu tivesse feito as pazes com -os meus, e, eu tenho feito. Pelo menos quando se trata dessa batalha, a guerra é longa. E é isso que eu espero, que possamos todos, em algum momento, entender nossos demônios e encará-los, diante do espelho. Tenho olhado para mim com amor. Quero que saibam que estou lutando para viver, e que esse álbum pinta o retrato da morte de um eu, para que outro eu pudesse nascer – destacou Loba, dizendo que um dos seus sonhos, é tocá-lo em teatros, acompanhado de uma bela orquestra. Além disso, ele também deseja que mais pessoas consigam enxergar a beleza na dor, como uma válvula de escape para situações extremas.

Não-binariedade:

Para quem ainda não teve a oportunidade de conhecer, a não-binariedade, ou, do inglês “genderqueer” é uma categoria abrangente para identidades de gênero que não estão relacionadas apenas a identidades masculinas ou femininas, ou seja, que estão fora do binário e da cisnormatividade de gênero, de acordo as informações. Pessoas que se identificam dessa forma, podem expressar uma combinação de masculinidade e feminilidade, ou nenhuma, em sua variância e expressão de gênero. Para Loba, essa realidade começou a se apresentar aos 12 anos, em que se sentia como um rapaz. Ele diz que foi libertador.

– Aos 12 anos eu me sentia como um rapaz, e tinha um perfil falso no Orkut com meu nome de nascença, no masculino. Contudo, eu era reprimido pela família. Esses foram os primeiros traços que apresentei de uma pessoa não binária. A segunda vez que isso apareceu fortemente, foi aos 16 anos, onde, mais uma vez, me reprimi devido à  família, e à falta de informação. Entretanto, tudo se agravou em 2018, quando comecei a escrever o álbum, pois, matei uma das minhas personalidades, que retornou de repente e não consegui lidar. A verdade é que a expressão artística e de gênero seguem o mesmo caminho. Foi na escrita do álbum que me entendi no lugar da não-binariedade, que sempre estive. Me sinto como um homem. Mas também me sinto como uma mulher – revelou ele, salientando que o confinamento provocado pela pandemia, foi o que o fez parar de fugir dessa realidade, e permitir um encontro consigo mesmo.

Ele continuou:- Se eu não tivesse me entendido, esse álbum não teria sido escrito, por que matei Loba, e criei outra persona, como um alter ego, mas, não o era. Era eu me escondendo atrás de uma personalidade com a qual eu não queria lidar. Não adiantava, pois, tudo que essa persona sentia, eu também sentia. A canção “Adeus” é sobre isso. Sobre a mesma dor, a mesma essência. E nesse posfácio, recito sobre o encontro de Lúcifer e o Diabo. Ou seja: entre o homem e a mulher que guerreiam dentro de mim. O mesmo corpo, em início e fim – pontuou.

Continuação do álbum:

Para Loba, o lançamento de “A Velha Angústia em 5 Atos” foi um primeiro, e longo passo que precede a muitos outros. Ele revela que tem trabalhado na continuação do mesmo, que se chamará “Do Inferno aos Céus”.

– Esse foi o meu primeiro álbum publicado. Tem a continuação dele, que é sobre perdão e redenção, e se chamará “Do Inferno aos Céus”. Estou trabalhando nesse. O primeiro álbum pretendo cantar em teatro, com orquestra. Mas, ao mesmo tempo, foi como uma carta de despedida, que eu precisava colocar no mundo – finalizou Loba.

Mais informações sobre o artista podem ser obtidas pelo seu perfil no Instagram (@umfilmeporloba), ou ainda, em seu site Umfilmeporloba. Seu álbum pode ser escutado pelo link do Youtube: clique aqui

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